20 de janeiro de 2010

Capítulo LXVI: As pernas

"Ora, enquanto eu pensava naquela gente, iam-me pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei à porta do Hotel Pharoux. De costume jantava aí; mas, não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da ação me cabe, e sim às pernas, que a fizeram. Abençoadas pernas! E há quem vos trate com desdém ou indiferença. Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos fatigáveis, quando não podíeis ir além de certo ponto, e me deixáveis com o desejo a avoaçar, à semelhança de galinha atada pelos pés.

Aquele caso, porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós deixastes à minha cabeça o trabalho de pensar em Virgília, e dissestes uma à outra: — Ele precisa comer, são horas de jantar, vamos levá-lo ao Pharoux; dividamos a consciência dele, uma parte fique lá com a dama, tomemos nós a outra, para que ele vá direito, não abalroe as gentes e as carroças, tire o chapéu aos conhecidos, e finalmente chegue são e salvo ao hotel. E cumpristes à risca o vosso propósito, amáveis pernas, o que me obriga a imortalizar-vos nesta página. "


Nesse capitulo eu não consigo sentir os 130 anos que me separam do dia da publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Amáveis pernas, pernas amigas que eu carrego, que para lindos lugares me carregam.
Que em diversas situações me apoiam e não me fazem cair.
Que me fazem andar becos, esquinas e grandes estradas (todas inesquecíveis).
Que tomaram chuva, que se encontraram com outras pernas.
Que dentro da coberta, em sonhos, com elas faço descobertas.

Pernas que quando se juntam com dois olhos, uma Brasília e um coração, uma demasiada alegria me toma conta. W3 norte, L2 sul, Brasília Shopping e Setor de Diversões Norte são seus lugares preferidos. Creio que se um dia elas não mais me pertencerem, vão sozinhas para certos lugares...
Porque em cada bloco que sento, cada faixa de pedestre que atravesso, cada loja que com elas eu entro um pouco de mim fica lá e um pouco de lá fica em mim.
Que não tem olhos mas já viram de tudo, pernas que não têm bocas mas diriam muito, e principalmente sobre mim. Pernas que já quiseram sair correndo ou nunca ter saído.

Um agradecimento especial ao Criador. Essas pernas não achei no lixo, foram me dadas de presente. Que elas caminhem sempre em Tua direção e obedeçam sempre aos Teus mandamentos. Minhas pernas foram levadas ao Teu encontro.

Sim, pernas amigas, vós deixastes à minha cabeça o trabalho de pensar na prova de Geografia , e dissestes uma à outra: — Ela precisa comer, são horas de jantar, vamos levá-la para casa; dividamos a consciência dela, uma parte fique lá com a prova e os estudos, tomemos nós a outra, para que ela vá direito, não abalroe as gentes e as carroças, tire o chapéu aos conhecidos, e finalmente chegue sã e salva em casa. E cumpriram à risca o vosso propósito, amáveis pernas, o que me obriga a imortalizar-vos nesta página.

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